segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Expectativa.

Os tambores cessaram. Finalmente, sua primeira sessão estava acabada.
Uma hora e meia de apresentação. Um teatro desanimadoramente 'meio vazio'.
Correu para o camarim. Tirou os sapatos, continuou com o figurino. Dentro de uma hora, a segunda sessão começaria. Voltou o mais rápido que pode à entrada do teatro. Sentou-se onde conseguiu.
As pessoas já compravam as entradas para a segunda sessão. Muitas delas.
Ainda sentia-se sozinha. Estava esperando-o há dois dias. Esperando-o.
Sorria quando lhe sorriam. Acenava quando acenavam. Percebia receio de algumas pessoas que a reconhecia. 'Uma das bailarinas do municipal'. Cansada disso.
Olhava para os lados impaciente. Todos os carros de cor prateada que por ela passavam, desmanchavam parte de sua expectativa.
Ele deixou bem claro, 'vou se não tiver nenhum imprevisto'. Como era difícil ele não ter imprevistos.
Bateu o pé. Reparou que seu figurino era um tanto exagerado para não ser identificada como uma das bailarinas. Dispensou seus pensamentos.
Mulheres. Homens. Crianças. Todos, menos ele.
Como estava difícil o contato nesses últimos meses. Queria sentí-lo novamente. Apertá-lo, abraçá-lo.
Beijá-lo.
Como queria tê-lo a seu lado por toda a eternidade.
O trabalho e a dedicação dele colidiam com a fome por dança dela.
Desde que ele decidira tentar o mestrado na faculdade e ela foi aceita para o grupo de ballet da cidade, todo o contato diminuiu.
Depois de sentir, por meses, como ele estava longe, ela ficou exausta.
Seus olhos correram todo o teatro. Ele não poderia ter deixado-a ali. Poderia?
Sentiu um aperto no peito. Um frio na barriga.
Vontade de correr. Deixar ali qualquer pessoa que iria assisti-la. Deixar ali todos seus compromissos. Deixar ali tudo que a remetia a ele.
Olhou o relógio. Ele tinha exatos dois minutos para chegar. Ou avisá-la que outro imprevisto ocorreu.
Soou ironico. O tempo passou mais rápido que o normal. Mesmo com tanta ansiedade.
Imaginava se os ingressos já estavam esgotados.
Mas não queria que ele a assistisse.
A caminho da entrada dos camarins, viu a diretora acenar.
Ele tinha perdido a última chance de encontrá-la.
Levantou sem ânimo. A última.
Nos camarins tudo agora estava sem graça. Toda a ansiedade sumira. Toda a adrenalina.
Seus olhos pesaram. Sentiu vontade de deitar-se e simplesmente dormir. Deixar que qualquer coisa ficasse ali, jogada no chão junto com ela.
Mesmo novata, era uma das principais bailarinas.
Sentiu pegarem sua mão. No palco em cinco minutos.
Alongou-se. Espreguiçou-se. Segurou as lágrimas.
Outra vez ela iria ao palco. Outra vez ele estaria longe.
Foi às coxias. Como era tedioso fazer isso sem que ele tivesse desejado boa apresentação antes.
As luzes azuis foram acesas no palco. Seus olhos claros. Ouviu a música leve. Sua voz forte.
Ponta dos pés. Que comece o espetáculo.
Nas pontas dos pés.
Um sorriso em seu rosto.

E um sorriso na plateia.

[entenda se for capaz.
haha, piada ruim.]

Um comentário:

Adriel G. Silva disse...

muito lindo boo
vc consegui quebrar a expectativa no final de um jeito sutil e disfarçado
adorei a melancolia que vc colocou na personagem e a máscara que ela tentava vestir por ser 'Uma das bailarinas do municipal'
"eu queria te dar um toque aceit c quiser, mas acho que ficaria muito legal c vc postasse uma de suas histórias com uma ilustração sua, assim vc mostra para seus leitores seus dois entendimentos de arte

bjus boo

jah estou com saudades de todos vcs do cuca